Imagine como seria a tarefa de encontrar uma pessoa em uma cidade como São Paulo sem qualquer informação sobre o seu endereço. Um trabalho parecido com esse é realizado pelos pesquisadores que buscam localizar a posição de um gene no código genético de uma espécie.
Para aumentar as chances de sucesso dessa busca, os cientistas procuram identificar regiões específicas do DNA, chamadas em inglês de Quantitative Trait Loci, ou QTL's, que sejam responsáveis pela manifestação de alguma característica particular. A identificação desses fragmentos de DNA seria equivalente a identificar o bairro onde uma pessoa mora, facilitando assim que ela seja encontrada.
Partindo desse pressuposto, os mapeamentos genéticos são conduzidos de maneira a limitar cada vez mais a região onde um gene específico possa estar posicionado dentro de um genoma. Assim, do bairro, a busca é reduzida para a rua; da rua para a quadra até que, finalmente, a localização exata do gene seja estabelecida.
Foi aplicando esse princípio que o pesquisador Millor Fernandes do Rosário, do Laboratório de Biotecnologia Animal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq, localizou duas regiões no genoma do frango onde estão contidos genes que expressam características importantes para os produtores avícolas.
A pesquisa de Millor teve como objetivo determinar como essas regiões do genoma controlam algumas características, como o rendimento das aves. Para isso, o pesquisador relacionou matematicamente algumas informações genéticas dos animais com as suas características externas, chamadas de fenotípicas. “Para juntar esses conjuntos de dados existem modelos matemáticos que fazem a união desses dois conjuntos de dados”, explica o pesquisador.
Ele conta que os dados utilizados no estudo são resultado de análises de características fenotípicas e de DNA realizadas em amostras de frangos de uma variedade desenvolvida pela Embrapa Suínos e Aves, localizada na Cidade de Concórdia,
A
Até então, esse tipo de análise era realizada com a aplicação de um método chamado mapeamento por intervalo que, de acordo com o pesquisador, apresenta algumas limitações.
Utilizando como base referências teóricas, Millor e outros pesquisadores desenvolveram um programa de computador capaz de realizar o chamado mapeamento por intervalo composto, mais elaborado e preciso.” Ele é mais elaborado porque utiliza não só a informação de um pequeno fragmento do DNA, mas, toda a informação do DNA que nós geramos”, revela.
A nova técnica possibilitou a Millor identificar 21 regiões presentes no genoma do frango, o que representa 50% a mais de eficiência em relação ao método tradicional. Das 21 regiões, duas não eram descritas na literatura científica.
Uma delas contém genes responsáveis pelo ganho de peso das aves, e a outra pelo consumo de alimento. Ele explica, no entanto, que ainda não é possível exatamente especificar quantos e quais desses genes expressam essas características. “Essas regiões contem os genes, mas nós ainda não sabemos exatamente qual desse genes é responsável por uma característica específica”, conta Millor.
“Agora, em um próximo passo nós já sabemos em qual região eles estão presentes e isso vai facilitar a sua identificação exata”, visualiza o pesquisador.
Millor explica que a importância desse tipo de pesquisa diz respeito à produção de conhecimento. Apesar da grande repercussão alcançada pelas pesquisas com genética, suas aplicações práticas são alcançadas apenas em médio e longo prazo. “Estamos gerando conhecimento. Apesar desses resultados serem inéditos e inovadores os benefícios desse conhecimento para o produtor ainda vão levar muito tempo”, afirma.
O pesquisador conta que a identificação dessas informações vai permitir a definição de marcadores moleculares que podem indicar ao produtor as características específicas de uma ave. Isto possibilitará o desenvolvimento de variedades mais eficientes pelos programas de melhoramento genético de aves no País. “Esse marcador pode nos indicar uma característica específica de uma ave como, por exemplo, se aquele indivíduo vai ter um peso superior, isso com certeza vai facilitar a vida do produtor lá na sua granja”, explica Millor.
A tese de Millor Fernandes do Rosário foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Genética e Melhoramento da Esalq. O estudo contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp. O pesquisador também contou com auxílio da Embrapa Suínos e Aves e dos departamentos de zootecnia e genética da Esalq.
